De todos os pensadores que nos últimos duzentos anos modelaram nossa compreensão da natureza humana, Sigmund Freud indiscutivelmente se encontra entre os mais importantes. Em toda a história do pensamento ocidental, talvez apenas Platão e Marx aparecessem em escala aproximada.
O que dá a Freud tal importância, a qual ele parece manter mesmo diante do mais feroz e contundente dos seus críticos? Uma forma de responder a tal questão é considerar a extensão e a natureza da transformação que trouxe para a psicologia.
Antes de Darwin, a psicologia, assim como as ciências naturais em geral, estavam profundamente enraizadas na religião.
Da mesma forma pela qual, físicos como Isaac Newton (ele próprio cristão devoto) examinavam a natureza, na esperança de desvendar os segredos de seu criador divino, aqueles que estudavam a natureza humana eram conduzidos por exigências religiosas semelhantes.
De fato a psicologia não era originalmente mais do que uma vertente da teologia cristã; a própria palavra foi criada, no século XV, por teólogos dedicados ao estudo da alma.
Tal como várias formas de saberes modernos, a psicologia, como disciplina que emergiu gradualmente durante o século XIX, conservou várias suposições e hábitos mentais pertencentes à idade da fé. Tinha suas raízes de um lado no pensamento de Platão e, de outro, nos ensinamentos de Jesus. O que as tradições, platônica e cristã, têm em comum é a crença de que seres humanos são feitos de duas entidades distintas - um corpo animal, criado por Deus, e um espírito, mente ou alma dado por Deus apenas ao homem.
A psicologia estava interessada na alma dos seres humanos. O interesse da psicologia em fenômenos cognitivos como memória, inteligência e percepção é uma herança desta perspectiva centrada na alma.
Ao criar a psicanálise no final do século XX, Freud modificou essa perspectiva que existia até então. Uma disciplina, que antes se interessava apenas por um extrato seleto e relativamente puro da existência humana, viu-se, de repente, diante do todo da vida humana.
Os mais profundos sentimentos de homens e mulheres, acima de tudo seus impulsos sexuais, claramente excluídos da filosofia por Platão como forma de corrupção intelectual, foram então postos como tema central desta nova ciência: a psicanálise.
O enorme apelo de uma forma de psicologia que nos coloca de frente com um dos assuntos mais fascinantes que há não deve ser subestimado: nossa herança animal e, acima de tudo, a natureza do desejo sexual humano, assim como a variedade de comportamentos sexuais.
Provavelmente seja por causa desse apelo que muitos não hesitaram em alçar Freud à condição de verdadeiro revolucionário intelectual, tal como fora Darwin.
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